CNI aponta que investimentos em infraestrutura precisam chegar a 4,65% do PIB; BNB, Bahia e Pernambuco mostram o cenário no Nordeste

Vanessa Siqueira

De Alagoas
vanessa.siqueira@movimentoeconomico.com.br / FONTE: ME

infraestrutura Brasilestudo
Levantamento da CNI aponta que Brasil precisa mais que dobrar os investimentos em infraestrutura para superar o déficit histórico do setor e se aproximar dos padrões internacionais. Foto: Divulgação

Um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que o país precisará mais que dobrar os investimentos em infraestrutura pelos próximos 20 anos e chegar perto de 4,65% do Produto Interno Bruto (PIB) ao ano para superar o déficit histórico e se aproximar dos padrões internacionais. No Nordeste, esse desafio passa pela ampliação das fontes de financiamento e pela capacidade de estruturar projetos capazes de atrair recursos públicos e privados.

Divulgado na terça-feira (15) pela CNI, o estudo Financiamento dos Investimentos em Infraestrutura no Brasil aponta que o desafio de ampliar os investimentos ocorre em meio a uma mudança na forma como os projetos são financiados no país. Em 2024, foram aportados R$ 266,8 bilhões em infraestrutura, o equivalente a 2,27% do PIB. O levantamento sugere que o Brasil precisa elevar esse índice para 4,65% do PIB, o que corresponde a cerca de R$ 550 bilhões, e sustentar esse patamar por ao menos duas décadas para que o país supere o hiato histórico de investimentos. 

​>> Siga o canal da Movimento Econômico no WhatsApp

Do total investido em infraestrutura, R$ 188,1 bilhões, o equivalente a 70,5% do total, foram injetados pelo setor privado. Os investimentos públicos alcançaram R$ 78,6 bilhões, impulsionados principalmente pelos governos estaduais e municipais. 

O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirma que um novo regime de financiamento é fundamental para alavancar os investimentos em infraestrutura e, assim, fortalecer a indústria nacional. Ele alerta que, para isso, é essencial que o país tenha um ambiente econômico, institucional e regulatório mais favorável à realização de projetos de longo prazo. 

“O Brasil precisa de responsabilidade fiscal, instituições sólidas e segurança jurídica para criar condições de mobilizar mais recursos privados para o setor de infraestrutura, sem abrir mão do papel estratégico dos investimentos públicos. Essa é uma frente importante para aumentar a competitividade da indústria brasileira”, diz Alban. 

Capital privado amplia participação no financiamento

A participação privada também avançou entre as fontes utilizadas para financiar os projetos. Segundo o estudo, a fatia do setor privado no financiamento total da infraestrutura passou de 37,4% em 2014 para 61,2% em 2024, movimento associado à ampliação das concessões, Parcerias Público-Privadas (PPPs), privatizações e maior presença do mercado de capitais.

Os setores de transportes e energia elétrica concentraram os maiores volumes de financiamento de origem pública e privada em 2024. Nos dois segmentos, a CNI identifica um modelo que combina recursos captados no mercado de capitais, capital próprio das empresas e financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

As debêntures passaram a ocupar espaço crescente nesse modelo. Em 2024, as emissões incentivadas destinadas à infraestrutura somaram R$ 56,6 bilhões no setor de energia elétrica e R$ 34,5 bilhões em transportes, valores que, juntos, corresponderam a cerca de dois terços do total emitido. Os projetos de saneamento captaram outros R$ 12,2 bilhões por meio do instrumento.

Banco do Nordeste
Banco do Nordeste atua como fonte pública importante para financiar projetos de infraestrutura nos estados nordestinos, segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria. Foto: divulgação

BNB financiou R$ 7,6 bilhões em infraestrutura em 2024

Embora o estudo não apresente uma divisão dos investimentos por região, o Nordeste aparece no levantamento por meio da atuação do Banco do Nordeste (BNB) e de projetos localizados na Bahia e em Pernambuco.

Na série levantada pela CNI, os financiamentos do BNB para infraestrutura somaram R$ 7,6 bilhões em 2024, abaixo dos R$ 12,6 bilhões registrados em 2023. Nos anos anteriores, foram R$ 7 bilhões em 2022, R$ 9,7 bilhões em 2021 e R$ 8,5 bilhões em 2020, considerando valores atualizados a preços de 2024.

O estudo aponta que o BNDES segue como a principal fonte pública de financiamento da infraestrutura brasileira. Outras instituições, como BNB, Banco da Amazônia (Basa), Caixa Econômica Federal e FI-FGTS, tiveram participação menor e apresentaram maior volatilidade nos volumes financiados ao longo da série analisada.

Para o presidente do Conselho Temático de Infraestrutura da CNI (Coinfra/CNI), Alex Carvalho, que também preside a Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), esses números evidenciam uma transformação relevante na forma de financiar a infraestrutura brasileira, marcada pelo avanço da participação privada. Segundo ele, esse movimento precisa ganhar escala para que a mobilização de recursos acompanhe os investimentos de que o país necessita. 

“Nesta última década, houve uma mudança estrutural no financiamento da infraestrutura brasileira. A participação das fontes privadas passou de 29,3%, entre 2010 e 2014, para 61,5% em 2024. O desafio agora é ampliar essa capacidade de mobilização e diversificar os instrumentos para sustentar o salto de investimentos que o país precisa”, afirma Carvalho.

Saneamento infraestrutura Pernambuco1
Estudo da CNI menciona empréstimo aprovado em 2024 pelo Banco Mundial para obras de saneamento básico em zonas rurais de Pernambuco. Foto: Divulgação

Bahia e Pernambuco aparecem entre projetos com recursos multilaterais

A participação de organismos multilaterais também aparece entre as fontes utilizadas para viabilizar projetos no Nordeste. Ao analisar esse tipo de financiamento, a CNI cita a atuação do Banco Mundial em projetos de pavimentação de estradas na Bahia e de saneamento básico em Pernambuco.

Pernambuco também é mencionado pelo estudo entre os exemplos relacionados à ampliação do uso de debêntures incentivadas no saneamento. O projeto, aprovado em 2024, o projeto previa um empréstimo de US$ 90 milhões do Banco Mundial e US$ 23 milhões adicionais do Governo Estadual de Pernambuco, com prazo final de 21 anos e 6 meses, incluindo um período de carência de 8 anos para realizar obras de acesso à água e saneamento em zonas rurais de estado.

Na Bahia, o Banco Mundial aprovou, também em 2024, um projeto modernizar a infraestrutura rodoviária no estado. O empréstimo inicial de US$ 150 milhões faz parte de um programa maior de US$ 1,662 bilhão voltado para aprimorar a gestão da infraestrutura rodoviária em todo o Brasil, a fim de melhorar as condições de transporte, o acesso e a sustentabilidade ambiental.

A CNI destaca que a política do Ministério das Cidades de elevar de 50% para 70% o percentual máximo permitido para captação por meio desses títulos aumentou a capacidade de financiamento de concessões e projetos do setor, citando Pernambuco e Pará entre os casos recentes

Infraestrutura investimentos CNI
Publicação traz um raio-x da origem e da evolução dos recursos destinados à infraestrutura brasileira e aponta a importância de o país estabelecer um novo regime de financiamento. Foto: Iano Andrade/CNI

CNI propõe novo regime para ampliar recursos

Para sustentar a expansão dos investimentos nas próximas décadas, a CNI defende a construção de um novo regime de financiamento da infraestrutura. Entre as medidas estão o fortalecimento do mercado de capitais, ampliação do crédito e do chamado project finance, aumento da oferta de projetos estruturados e maior atuação do BNDES e da Caixa na preparação de concessões e PPPs.

No modelo defendido pela entidade, os bancos públicos também teriam papel na estruturação de projetos para estados e municípios e na criação de mecanismos capazes de atrair recursos privados. O estudo cita como áreas com potencial para esse tipo de atuação saneamento básico, resíduos sólidos, mobilidade urbana e projetos metropolitanos.

A CNI também aponta segurança jurídica, previsibilidade regulatória e estabilidade macroeconômica e fiscal como condições para ampliar o financiamento de longo prazo. Segundo o estudo, os atuais volumes captados ainda são insuficientes para sustentar a escala de investimentos necessária para reduzir o déficit de infraestrutura do país.

“A modernização da infraestrutura demanda esforço contínuo, sistemático e de longo prazo. Apenas uma política de Estado — e não de governo — pode impulsionar o investimento produtivo, elevar o bem-estar das famílias, gerando ganhos estruturais e duradouros de produtividade e competitividade para o país”, acrescenta o presidente da CNI. 

Leia mais: Com Redata sancionado, NE tem energia e cabos submarinos para atrair data centers

Categorias: SINDISERRAPE

0 comentário

Deixe um comentário

Avatar placeholder

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *